Teatroiquè recebe Residência Sociedade Arminda com três espetáculos de José Fernando Peixoto de Azevedo
Apresentadas em temporadas consecutivas, as montagens investigam experiências de violência e devastação na sociedade contemporânea
Foto: Bruno Schuaber
Entre março e maio, o Teatroiquè recebe a Residência Sociedade Arminda, que reúne três espetáculos dirigidos por José Fernando Peixoto de Azevedo: Ensaio sobre o Terror, Blasted e o inédito Os Jovens Infelizes. Apresentadas em temporadas consecutivas, as montagens aprofundam uma pesquisa cênica que atravessa diferentes autores e materiais dramatúrgicos para investigar experiências de violência, devastação e terror na sociedade contemporânea.
Instalado em um espaço que originalmente funcionou como estúdio de cinema, o Teatroiquè torna-se parte fundamental dessa proposta. Em todas as montagens, uma tela de 3 por 6 metros (formato 16:9) e câmeras em cena criam um dispositivo que articula presença teatral e imagem filmada em tempo real. A utilização da tela, no entanto, assume funções diferentes em cada espetáculo, produzindo distintos modos de relação entre palco, imagem e espectador.
ENSAIO SOBRE O TERROR
Foto: Pedro Martins
Inspirado no conto Pai contra Mãe, publicado por Machado de Assis em 1906, Ensaio sobre o Terror investiga a violência racial na formação da sociedade brasileira. Em cena, o ator Rodrigo Scarpelli assume a figura de um ensaísta que percorre o texto machadiano enquanto expõe os mecanismos históricos e simbólicos que sustentam a brutalidade racial.
A narrativa acompanha Cândido Neves, homem branco pobre que sobrevive capturando escravizados fugidos. Ao reconhecer na rua uma mulher negra procurada em anúncios de fuga, ele decide capturá-la mesmo ao perceber que ela está grávida, gesto que culmina em um episódio de extrema violência. A partir dessa cena, o espetáculo desdobra uma reflexão sobre branquitude, racismo e a naturalização da violência no cotidiano.
“Há uma frase nesse texto machadiano que parece sintetizar algo da nossa sociedade. Enquanto a mulher é espancada, o narrador comenta que todos à volta compreendiam o que acontecia e naturalmente não faziam nada”, observa Azevedo.
Indicada ao Prêmio Shell na categoria Direção e ao Prêmio APCA na categoria Espetáculo após sua estreia em 2023, a montagem utiliza procedimentos do suspense cinematográfico, com câmera em cena e trilha executada ao vivo ao piano, criando uma atmosfera de tensão crescente.
Ficha Técnica
Dispositivo de Cena, Dramaturgia e Direção – José Fernando Peixoto de Azevedo. Atuação – Rodrigo Scarpelli. Câmera em Cena e Edição de Imagem – Fredo Peixoto. Edição de Imagem ao Vivo – Soma. Direção Musical – Abraão Kimberley e Victor Mota. Música em Cena – Roberto Mendes Barbosa. Desenho de Luz – Denilson Marques. Operação de Luz – Joyce Luz. Produção – Corpo Rastreado.
Temporada: De 20 a 29 de março
Horário: Sexta e Sábado, às 21h | Domingo, às 19h
Local: Rua Iquiririm, 110 – Butantã
Ingressos: R$80,00 (inteira) | R$40,00 (meia) | Compre aqui
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos
BLASTED
Foto: Bruno Schuaber
Escrita em 1995 pela dramaturga britânica Sarah Kane, Blasted tornou-se um marco do chamado in-yer-face theatre, movimento que confronta o público com temas e imagens extremas. A estreia da peça no Royal Court Theatre, em Londres, provocou reações intensas da crítica, mas ao longo dos anos consolidou Kane como uma das vozes centrais da dramaturgia contemporânea.
Trinta anos depois, o texto retorna à cena em nova montagem dirigida por José Fernando Peixoto de Azevedo. A encenação acompanha personagens confinados em um quarto de hotel enquanto a violência do mundo exterior invade progressivamente o espaço íntimo.
Misoginia, violência racial, guerra e desejo atravessam as relações entre Ian, Cate e um Soldado, interpretados por Juliane Arguello, Lucas Rosário e Michel Joaquim. Na encenação, recursos como câmera ao vivo, projeções e chroma key criam um sistema de edição em tempo real que amplia o diálogo entre teatro e linguagem cinematográfica.
Ficha Técnica
Texto – Sarah Kane. Dispositivo de Cena e Direção Geral – José Fernando Peixoto de Azevedo. Tradução – Laerte Mello. Elenco – Juliane Arguello, Lucas Rosário e Michel Joaquim. Câmera em Cena – Samurai Cria. Edição de Imagens ao Vivo – Gustavo Calbo. Assistência de Direção – Fabrício Rodrigues, Michel Joaquim e Lucca Strabelli. Direção Musical e Música em Cena – Agá Péricles. Direção de Arte – Iara Salomão. Assistência de Direção de Arte – Eliza Portas e Marcella Georgini. Desenho de Luz – Denilson Marques. Cenotecnia – Zito Rodrigues e Nilton Ruiz. Projeto Gráfico – Gustavo Calbo. Parceria – Teatroiquê. Produção Executiva – Sociedade Arminda. Produção – Corpo Rastreado.
Temporada: De 04 a 12 de abril
Horário: Sexta e Sábado, às 20h30 | Domingo, às 19h
Local: Rua Iquiririm, 110 – Butantã
Ingressos: R$80,00 (inteira) | R$40,00 (meia) | Compre aqui
Classificação: 16 anos
Duração: 100 minutos
OS JOVENS INFELIZES
Seguindo a residência, a Sociedade Arminda estreia Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, criação inédita que parte de textos e entrevistas de Pier Paolo Pasolini, entre eles o artigo Os jovens infelizes, o poema Hierarquia e a última entrevista concedida pelo artista italiano poucas horas antes de seu assassinato, em 1975, intitulada Estamos todos em perigo.
Na peça, três jovens moradores da periferia da cidade de São Paulo decidem assassinar um fascista. O sequestro do homem coloca o trio diante de uma situação limite, fazendo emergir impasses, divergências e tensões capazes de redefinir seus destinos. Em um país marcado por recorrentes episódios de justiçamento – com registros semanais de linchamentos ou tentativas –, a encenação coloca em perspectiva a transformação da revolta em tentativa de justiça com as próprias mãos, levantando uma pergunta central sobre o próprio sentido de justiça no presente.
A montagem articula esse conflito dramático a ecos da obra de Pasolini, como o filme Salò ou os 120 dias de Sodoma, além de seus escritos e reflexões sobre fascismo, consumo e crise geracional. Ao aproximar esses materiais da realidade brasileira contemporânea, o espetáculo investiga como as tensões políticas e sociais atravessam a juventude de hoje.
Em cena, os atores Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria transitam entre personagens, depoimentos e fragmentos textuais, enquanto imagens captadas ao vivo dialogam com a ação teatral. A encenação alterna o espaço da peça e o de um set de filmagem, aprofundando a pesquisa da chamada “peça-filme” desenvolvida pelo diretor.
Ficha Técnica
Dramaturgia, Dispositivo de Cena e Direção – José Fernando Peixoto de Azevedo. Atores – Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria. Direção Musical – Agá Péricles. Desenho de Luz – Denilson Marques. Produção – Corpo Rastreado. Realização – Sociedade Arminda e Teatroiquê.
Temporada: De 24 de abril a 25 de maio
Horário: Sexta, Sábado e Segunda, às 21h | Domingo, às 19h
Local: Rua Iquiririm, 110 – Butantã
Ingressos: R$80,00 (inteira) | R$40,00 (meia)
Classificação: 16 anos
Duração: 120 minutos
Siga o Canal Tadeu Ramos no Instagram
Comentários
Postar um comentário