Kiko Rieser estreia em Março, com a Companhia Colateral, "Nós, os Justos", no Teatro Itália

Montagem é um retrato contundente da cultura do cancelamento.

Nós, os Justos

Foto: Ronaldo Gutierrez

Vivemos um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se perigosamente tênue. Diante de acusações, boatos e versões conflitantes, o veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva e pela necessidade imediata de apontar culpados. É esse cenário que serve de base para Nós, os Justos, nova peça escrita e dirigida por Kiko Rieser e encenada com a Companhia Colateral, que estreia em março, no Teatro Itália.

Ambientada em uma grande empresa, a obra acompanha o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário e as consequências que se espalham pelos corredores, contaminando relações, decisões e reputações. Mais do que retratar um conflito individual, o espetáculo investiga como a cultura do cancelamento opera no plano presencial, no convívio cotidiano, corroendo o direito à defesa e o espaço da escuta.

Nós, os Justos

Foto: Ronaldo Gutierrez

Escrita originalmente em 2018, quando a "cultura do cancelamento" começava a se desenhar, a peça atravessou quase uma década sem modificações substanciais — exceto pela incorporação do conceito de compliance, hoje central no mundo corporativo. O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, ecoando episódios emblemáticos da vida real onde o desejo de vingança eliminou o direito à defesa. A encenação reforça essa temática ao colocar o espectador diante de uma estrutura que mimetiza um julgamento, prendendo a atenção pela tensão constante. Rieser confirma que essa percepção de um tribunal em cena é o cerne da montagem. “A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada para que cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de julgamento que não oferece saída fácil ao público.”

Na trama, boatos sobre o suposto comportamento inadequado de um funcionário desencadeiam um processo interno de apuração. O que deveria ser um procedimento objetivo rapidamente se transforma em uma disputa de versões, interesses e percepções, onde a verdade deixa de ser um dado e passa a ser uma construção instável. Sem provas conclusivas, o caso passa a ser definido menos pelos fatos do que pela força dos discursos, sacrificando a complexidade em favor de interpretações simplificadas.

Nós, os Justos

Foto: Ronaldo Gutierrez

Kiko Rieser pontua que a peça nasce desse "caldeirão de emoções genuínas combinadas com a falta de racionalidade". Para o diretor, o cancelamento muitas vezes nasce de um clamor legítimo por justiça em contextos em que as instituições falham, mas o risco surge quando esse anseio se converte em desejo de punição imediata.

O espetáculo evidencia como, nas guerras de narrativas da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com uma versão conveniente. Trata-se de um retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de escuta: “A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição. Vivemos um tempo de extremos, em que o ato de julgar segundo princípios próprios tornou-se naturalizado”, conclui Kiko.

Nós, os Justos

Foto: Ronaldo Gutierrez

Um ponto importante da peça é a presença invisível de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados ironicamente de “a manada”, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.

“A gravidade de temas como perseguição e abuso de poder exige equilíbrio e menos paixão”, pontua Rieser. “Quando a identificação imediata com uma história passa a importar mais do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça se torna enorme.” Ao evidenciar esse comportamento coletivo, o espetáculo revela como o desejo de “fazer justiça” pode facilmente se transformar em violência simbólica e exclusão. O diretor espera, por fim, que o público não reproduza esse comportamento ao sair do teatro: “O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento que prejudicam todos os envolvidos.”

Ficha Técnica

Texto e direção: Kiko Rieser. Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú. Assistência de direção: Letícia Calvosa. Stand-in: Natália Moço. Cenografia: Bruno Anselmo. Desenho de luz: Rodrigo Palmieri. Figurino: Marichilene Artisevskis. Música original: Mau Machado. Preparação corporal: Bruna Longo. Consultoria de queda e dublê: Aline Abovsky. Cenotecnia: Casa Malagueta, Alício Silva, Danndhara Shoyama, Igor b. Gomes, Larissa Baldissera, Shampzss e André Souza. Costura: Judite Gerônimo de Lima. Operador de som e luz: Rodrigo Palmieri. Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Designer gráfico: Lucas Sancho. Assessoria de imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira. Gestão de mídias sociais e tráfego pago: CulturaLab. Produção: Rieser Produções e Rodri Produções. Direção de produção: Jessica Rodrigues. Coordenação de produção: Carolina Henriques. Produção executiva: Diego Andrade e Julia Terron. Assistente de produção: Diego Leo. Realização: Companhia Colateral.

NÓS, OS JUSTOS

Nós, os Justos

Foto: Ronaldo Gutierrez

Data: De 06 de março a 26 de abril

Horário: Sextas e Sábados, às 20h | Domingos, às 19h

Local: Av. Ipiranga, 344 – Centro

Ingressos: R$ 90,00 (inteira) | R$ 45,00 (meia)

Classificação: 14 anos

Siga o Canal Tadeu Ramos no Instagram

Comentários